Pesquisa feita nos Estados Unidos e Alemanha revela que narcisistas não usam mais o pronome na primeira pessoa
Pessoas narcisistas gostam de ser o centro das atenções, costumam ser insensíveis aos sentimentos alheios e têm ideias grandiosas de si mesmas. Como só falam de si, possuem a fama de viver dizendo eu (eu, eu, eu). No que diz respeito ao uso do pronome na primeira pessoa, porém, a fama é injusta. De acordo com um estudo publicado na edição de abril do Journal of Personality and Social Psychology, os narcisistas não usam mais (eu) do que os outros. Segundo os pesquisadores, o sinal linguístico mais conhecido para caracterizar um narcisista não passa de um mito.
Embora a conexão entre o narcisismo e o uso do (eu) seja muito intuitiva, a base empírica para essa associação é surpreendentemente fraca. O foco em si mesmos dos narcisistas aparentemente não está no (I, me, mine [eu, mim, meu], como diz a música dos Beatles), escrevem os pesquisadores no estudo.
Eu – As primeiras evidências de que os narcisistas usariam o pronome de primeira pessoa em enormes quantidades surgiram em um estudo americano de 1988. Ao analisar as respostas de 48 pessoas a questionários psicológicos, os pesquisadores perceberam que os narcisistas realmente empregavam mais o (eu) do que os outros. Mesmo com um número tão reduzido de participantes, a conclusão ganhou força na comunidade científica e estudos com letras de músicas ou literatura nos últimos cinco anos pareciam dar apoio à teoria.
No entanto, a psicóloga Angela Carey, da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, achava que esses indícios ainda eram muito fracos para dizer que os narcisistas falam de forma diversa de outras pessoas. Reuniu uma equipe de pesquisadores e submeteu 4.811 adultos dos Estados Unidos e Alemanha a 15 experimentos diferentes para verificar se narcisistas usam mais o pronome (eu) que outros. Analisou dados de dissertações, vídeos, questionários e até das páginas pessoais do Facebook, além de fazê-los responder às mesmas perguntas do experimento de 1988.
Usando métodos estatísticos para analisar os textos, Angela não encontrou nenhuma diferença entre a frequência do uso de (eu) entre narcisistas e não narcisistas. Entre os homens, o uso era ligeiramente maior pelos narcisistas, mas tão pouco que se tornou estatisticamente irrelevante.
Culpa do ouvinte – Pesquisas sobre narcisistas feitas nos últimos anos revelam que o sexo masculino tende a ser mais narcisista que o feminino, demonstrando desejo de poder, ideia de ser merecedor de tudo e exibicionismo. Além disso, pais que supervalorizam os filhos, achando que são mais especiais que o comum, tendem a criar pequenos narcisistas. Com sua autoconfiança exagerada e ego inflado, os narcisistas costumam ter incapacidade de manter relações duradouras com os outros, ser agressivos e demonstrar falta de ética.
Por causa dessas características, os pesquisadores especulam que talvez o ouvinte naturalmente espere que o narcisista fale mais usando o pronome eu e venha daí a impressão de escutá-lo mais.
O eu pode ser parte de um esquema de autoconfiança ou arrogância que, uma vez ativado, seletivamente chama a atenção para o uso da primeira pessoa do singular, escrevem os pesquisadores no artigo. No entanto, encontramos um consistente efeito próximo a zero em vários contextos de comunicação.